Uma ode ao tédio e à inutilidade
Este artigo não é útil nem estimulante.
Matt Damon afirmou que a Netflix está alterando a estrutura de seus filmes de ação para conquistar a atenção de um público que divide a tela da TV com o celular. O ator explicou que a mudança é estrutural, de forma que os filmes posicionam uma cena de alto impacto logo nos primeiros cinco minutos para fisgar a atenção, construindo ainda cenas cada vez mais estimulantes a cada poucos instantes.
Isso não é exatamente uma novidade quando pensamos no mundo pós-internet. A velocidade chegou para todos e o atual estágio do capitalismo reforça isso. Com a IA, o trabalho tornou-se ainda mais intenso e estimulante, com informações indo e vindo de um lado ao outro sem qualquer distanciamento. O próprio celular virou instrumento de controle e pressão, fazendo com que as horas trabalhadas superem o que já está definido em contrato.
O grande problema disso tudo — como se tudo que falei já não fosse problemático o bastante — é que tal estrutura nos ensina a odiar o tédio. O tempo morto se torna inimigo da vida e mesmo o lazer precisa ganhar uma função produtiva.
Daí, o filme visto no fim de semana com a família precisa virar texto no Letterboxd; O livro lido precisa ser comentado nas redes; a caminhada da semana precisa ser monitorada, o número de passos controlados e a quilometragem vista de perto. O tédio enquanto vazio torna-se repugnante. Não fazer nada é um pecado mortal, mas mesmo o fazer algo torna-se imoral quando esse algo não apresenta uma clara função de vida. Mas que vida?
Acelerando cada vez mais fundo em nossos trabalhos, relacionamentos e hobbies, para onde estamos indo? Há vida quando nos envolvemos tanto no automatismo — como máquinas numa indústria — que perdemos noção do que estamos fazendo agora? O que você está fazendo agora? Está fazendo alguma outra coisa enquanto lê este texto, ou aguenta ficar alguns minutos na frente de letras mortas?
Talvez a vida seja encontrada exatamente no tempo morto. O tempo do vazio, quando você sente que realmente existe. O tempo que exige presença e reflexão, lidando com o próprio silêncio que existe no coração. O tempo que às vezes é doloroso — ou chato, ou lento, ou inútil — e, até por isso, tão valioso.
Ser inútil — mesmo que por alguns minutos no dia — pode ser a coisa mais valiosa que você pode fazer por você. E abraçar o tédio.
Acredite, o mundo não vai acabar enquanto você desacelera.


To até fechando o Teams aqui, me motivou a nem trabalhar hoje
Sejamos inúteis!